Lá em 2014 eu escrevi aqui sobre a canelite. Eu estava treinando forte para baixar o tempo nos 5 km, fazendo tiros de 200 metros num ritmo que hoje me dá saudade, e a canela começou a reclamar. Eu fiz o que todo corredor amador faz: ignorei. Spoiler: não funcionou.

Mais de dez anos depois, com mais idade, menos colágeno e uma condromalácia de brinde, o assunto ficou ainda mais atual. Então resolvi revisitar o texto, agora com o olhar de quem já passou dos 50.

O que é a canelite, afinal?

Canelite é o nome popular da síndrome do estresse tibial medial: uma dor na parte interna da canela, ao longo da tíbia, que aparece com o exercício. É uma lesão por sobrecarga, ou seja, não vem de uma pancada, vem de repetição demais com recuperação de menos.

No começo ela é só uma dorzinha chata no início do treino, que some quando o corpo esquenta. Esse é o momento traiçoeiro: como passa, a gente continua. E aí ela volta mais forte, fica depois do treino, aparece na escada, e quando você vê está com uma bolsa de gelo em cada perna escrevendo um post (verídico).

Por que ela aparece?

Raramente existe uma causa só. Os suspeitos de sempre são:

  • Aumento brusco de volume ou intensidade — o clássico “estou me sentindo ótima, vou dobrar a quilometragem”.
  • Tênis gasto, que já não absorve impacto como antes.
  • Treinar sempre em superfície dura, como asfalto e calçada.
  • Pisada e biomecânica — pronação excessiva, passada muito longa, aterrissagem com o calcanhar muito à frente do corpo.
  • Musculatura fraca ou desequilibrada na panturrilha, pé, quadril e core.
  • Lesões anteriores e falta de flexibilidade.

E depois dos 50, muda alguma coisa?

Muda. Com a menopausa, a queda do estrogênio afeta a densidade óssea e a recuperação dos tecidos. Isso não é motivo para parar de correr — pelo contrário, o impacto bem dosado é um dos melhores estímulos para os ossos. Mas é motivo para levar a sério a progressão do treino e não confundir teimosia com determinação (coisa que eu, mais teimosa que burro empacado, faço com frequência).

Outro detalhe: dor persistente e bem localizada num ponto da tíbia pode ser fratura por estresse, não canelite. Depois dos 50, vale ainda mais investigar com um médico em vez de esperar passar.

O que fazer quando ela aparece

  • Reduza o volume e a intensidade por alguns dias. Trocar o intervalado por um regenerativo leve, ou por bicicleta e natação, mantém o condicionamento sem castigar a canela.
  • Gelo na região depois do treino ajuda a aliviar a dor.
  • Confira o tênis: se já passou de uns 600 a 800 km, provavelmente está na hora de aposentar.
  • Fortaleça panturrilha, pés e quadril. Elevação de panturrilha, exercícios de equilíbrio num pé só e fortalecimento de glúteo fazem diferença.
  • Varie o piso: grama, terra batida e pista sintética são mais gentis que o asfalto.
  • Aumente o treino aos poucos. A regra que mais funciona para mim é não aumentar o volume semanal de forma brusca — e quem pode ajustar isso com segurança é um profissional de educação física.

E se ela voltar?

Se a canelite vai e volta, o problema provavelmente está em algum padrão do seu movimento. Aí o caminho é procurar um ortopedista ou médico do esporte e, se possível, fazer uma avaliação da pisada e da biomecânica. Corrigir a causa é o que deixa você voltar a trotar sem medo de ser feliz.

E você, já teve canelite? Ficou curada de vez ou ela aparece de vez em quando para lembrar que existe? Conta aqui nos comentários.

Este texto conta a experiência de uma corredora amadora e tem caráter informativo. Dor que não passa, piora ou muda seu jeito de pisar é caso de médico — de preferência ortopedista ou médico do esporte.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *