Em 2014 eu escrevi um desabafo aqui no blog. Eu tinha um negócio de delivery recém-aberto, dava aulas de inglês numa pré-escola às terças, tinha uma filha pequena e estava inscrita numa prova de 5 km com uma meta ambiciosa: fazer em 20 minutos, ou o mais perto disso.
Só que a vida não leu a planilha do treinador. Num dia a geladeira pifava e eu precisava correr — não na rua, mas atrás de um técnico. No outro, o fornecedor que vinha de manhã avisava, depois que a manhã já tinha acabado, que só viria à tarde. No outro, o entregador faltava e eu saía ligando para meio mundo. O treino ficava sempre para o último lugar da fila.
Primeiro, o surto
No começo eu surtei. Ia perder a meta, ia jogar fora meses de treino, ia decepcionar o treinador, a mim mesma e provavelmente a humanidade. Até suspendi o treinamento com a assessoria, porque não havia como manter regularidade.
Depois, a paz possível
Até que caiu a ficha: eu estava fazendo o que dava, do melhor jeito que eu podia, com o que eu tinha à mão naquele momento. Fui para a prova com a cabeça leve, sem compromisso com o relógio, para me divertir e encontrar os amigos. Corri pela endorfina e pela saúde, que no fim das contas é o que mais importa.
Mais de dez anos depois
Hoje a filha cresceu, o negócio é outro, mas a vida continua cheia de geladeiras pifando. Depois dos 50 entram em cena outros imprevistos: a noite mal dormida por causa do calorão, o joelho que acorda de mau humor, os pais que precisam de mais atenção, o trabalho que não diminui.
A diferença é que agora eu sei que existem fases. Tem fase de buscar recorde e tem fase de só não parar. As duas contam.
O que me ajuda a não abandonar de vez
- Baixar a régua sem largar a régua. Se não dá para treinar 5 vezes, treino 2. Se não dá 40 minutos, vão 20.
- Marcar o treino na agenda como se fosse consulta médica. Treino que fica “para quando der” não dá.
- Correr com alguém. É muito mais difícil furar com uma amiga do que com você mesma.
- Ter uma prova no horizonte, mesmo que seja só para se divertir.
- Lembrar por que eu comecei. No meu caso, porque correr me faz sentir viva — e menos maluca.
Se você está numa dessas fases em que tudo parece mais urgente que o seu treino, saiba: não é fracasso, é vida. Faça o que dá. A corrida espera por você.
E aí, qual foi o imprevisto mais absurdo que já te impediu de treinar? Conta aqui embaixo — prometo que a minha geladeira ganha.
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