Prova de 10 km é aquela distância traiçoeira: curta o bastante para você achar que dá para ir forte, longa o bastante para cobrar cada segundo de arrogância na largada.
Minha primeira foi em Vinhedo, em 2007. Minha irmã, muito mais preparada que eu, me puxou, me arrastou e não me deixou desistir no meio do caminho. A segunda foi em Tóquio, num fevereiro de 3 °C, depois de semanas trabalhando das 8h às 23h e treinando de madrugada. Os japoneses da empresa, que mal me conheciam, me patrocinaram porque acharam bonito o meu ganbatte — o esforço. Valeu cada minuto.
Anos depois, inspirada num texto delicioso do Iberê Dias, do Runners Brasil, que descreve a prova de 10 km quilômetro por quilômetro, montei a minha própria versão. Com sotaque de amadora 50+.
Km 1: o round da paciência
Você está descansada, a música está tocando, todo mundo sai voando. O primeiro quilômetro deveria ser o mais lento da prova, com a respiração sob controle. A sensação é de estar desperdiçando segundos preciosos. Não está. Quem cai na tentação de sair forte costuma ser ultrapassada lá no final — inclusive por si mesma de ontem.
Km 2: encontrando o ritmo
É a fase de transição. Você procura o pace que vai segurar pelo resto da prova. O esforço sobe, mas ainda dá para sorrir para o fotógrafo.
Km 3 e 4: piloto automático
Ritmo encaixado, velocidade de cruzeiro. O pace fica constante, mas o coração e a respiração vão subindo devagarinho. Aqui é onde eu começo a calcular o tempo final de cabeça — e erro todas as contas.
Km 5: o segundo round
Metade da prova. Já não parece tão fácil e ainda faltam cinco. As pernas começam a resmungar. Na menopausa, é também aqui que o fogacho resolve aparecer para dar um oi, como se a prova já não estivesse quente o bastante.
Km 6 e 7: negociação
Respiração ofegante, músculos cansados. Você começa a negociar consigo mesma: “só até aquela esquina”, “só até o próximo posto de água”. Funciona melhor do que parece.
Km 8: a hora da verdade
A placa do 8 é onde mora o famoso “será?”. O esforço está alto e a luta mental vira luta livre. É a hora de lembrar dos treinos debaixo de chuva, sol e frio, do despertador às 5h, das vezes que você foi mesmo sem vontade. Você não acordou cedo esse tempo todo para andar agora.
Km 9 e 10: vai com o que sobrou
O plano é simples: ir com o que sobrou, torcendo para ter sobrado alguma coisa. O corpo está ali, o coração na boca, e tudo começa a parecer meio surreal. A lucidez só volta uns minutos depois da linha de chegada, junto com a medalha e a banana.
O que eu aprendi (e ainda esqueço)
- Largue mais devagar do que você acha que deveria. Sempre.
- Corra contra o relógio, não contra a moça de rosa do lado. Para nós, amadoras, a prova é você de hoje contra você de ontem.
- Tenha um mantra para o km 8. O meu é impublicável.
- Hidrate-se antes do calor bater. Depois dos 50, a sensação de sede demora mais a aparecer.
E você, em qual quilômetro costuma bater o “será?”? Conta nos comentários.
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